terça-feira, 19 de setembro de 2017

"Bóra", que a borra corrobora!


Acorda pra fazer o café, Maria!
Acorda, que o dia já vem!
Senta, faz-me companhia.
O cheiro é bom, o gosto também!

Cheiro de aconchego, gosto de vida por vir...

Acorda pra fazer o café, Maria! 
Acorda que a tarde aí está!
O dia vai duro, e verte
Um cheiro de lida no ar...  

Gosto de lida extenuada!

Acorda pra fazer o café, Maria!
Acorda, que a noite já vem!
Traz um gosto de descanso, 
dissipando o descaso de alguém!

Cheiro de mágoa mitigada!

E corrobora a borra do café.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Isso é Minas!

     Ah, as Minas Gerais!
     O bairro é calmo e não completamente invadido por prédios. Muitas casas ainda, daquelas de família mineira, com varanda que antes dava pra calçada e onde "as gentes" sentavam e olhavam o movimento, mas onde hoje tem um muro que atrapalha, com portões altos que dão a ilusão de segurança.
     Passeava com a cachorra e passei por um desses portões altos e na fechadura, pelo lado de fora, vi uma chave pendurada. Cheguei perto pra ter certeza e resolvi bater a campainha. Ninguém atendeu. Insisti, tocando outra vez. Ninguém respondeu. Atravessei a rua em direção ao salão de beleza em frente à casa... quem sabe ali não conhecessem os donos da casa e pudessem guardar a chave?
     Ainda não havia chegado na outra calçada, quando ouvi o portão se abrindo. Voltei-me  para o portão e sorri. A senhora do lado de dentro olhou meio sem entender.
     - Desculpe incomodar, mas é que vi essa chave (e apontei) aí do lado de fora do portão e achei que seria melhor avisar.
     A senhorinha olhou com olhar desentendido:
     - Mas como assim? Eu não entendo porque essa chave está aqui. O que será que aconteceu? Por que ela não pegou a chave e nem trancou o portão?
     - Pois é, às vezes a gente esquece mesmo! Resolvi avisar porque já aconteceu comigo algumas vezes e sei a aflição que dá.
     - É até perigoso, né? Como você se chama?
     - Maria.
     - E eu me chamo Lúcia!
     - Olá, D. Lúcia!
     - Você é daqui mesmo?
     - Mais ou menos. Moro aqui há 4 anos.
     - Eu morei a vida toda aqui. Me casei e vim pra cá. Criei meus filhos e meus netos nessas ruas aqui.
     - É um bairro gostoso, né?
     - Eu gosto. Minha irmã mora aqui nessa casa. Depois que a gente envelhece é muito bom ter a família por perto. Minha outra irmã mora em Carangola. A gente se vê só de vez em quando.
     - Que bom que uma das irmãs mora pertinho, né?
     - É um pulinho da minha casa! Bom demais!
     Um momento de silêncio, ajeito na mão a coleira da cachorra, olho pra D. Lúcia e faço menção de me despedir pra continuar a caminhada.
     - Maria, Você sabe aquele prédio grande da esquina?
     - Ah! Aquele prédio? Sei... (claro que não sabia!)
     - Pois é, eu moro naquela casa grande ao lado. Aparece lá pra gente tomar um café! Eu gostei de você!
     Sorri:
     - Claro! Apareço sim! Boa tarde, D. Lúcia.
     - Boa tarde, Maria. Deus lhe pague! Muito obrigada pela gentileza!
     Claro que nunca apareci na casa da D. Lúcia pra tomar café, mesmo porque não tenho noção alguma de onde mora D. Lúcia, mas aquele "passa lá pra tomar um café!" me trouxe um enorme aconchego interno.
     Isso é Minas!

terça-feira, 18 de julho de 2017

E pela janela, vozes...

    Como boa mineira, minha avó amava observar o movimento da rua pela janela da sala da casa onde morava. Acho que aprendi com ela a me divertir com isso, apesar de ter sempre a sensação de que estou perdendo meu tempo ou que isso é coisa de quem não tem o que fazer! Parei pra pensar nisso dia desses e percebi que podemos tirar proveito da atividade! Mineiros não são bobos não! É gente esperta, que gosta de aprender com a vida!
     Da janela do quarto onde durmo, vejo (e ouço) o parquinho do bairro. Uma regalia, diga-se de passagem, já que o comum por aqui é olhar pela janela e ver outras janelas... ou apenas paredes! Às vezes abro a janela, quando acordo, pra deixar o sol entrar e não é raro entrarem também várias vozes...
     A da faxineira do prédio na segunda-feira de manhãzinha, junto com o barulho da mangueira de água na calçada (!!!) costumava me irritar um pouco, já que o que eu ouvia era aquela conversa de gente "intrigueira", antes mesmo de abrir a janela ou mesmo meus olhos: "Mas ela disse que ficou com raiva de mim e eu nem liguei. Disse que não tava nem aí pra ela! Quem mandou ela dar 'de cima' dele?". Mas essa faxineira já foi embora! Ufa! (E a atual é muito agradável!)
     A voz de papais e mamães esbravejando um "não sobe aí que você vai cair", ou enaltecendo suas crias com um "muito bem, filha, que lindo!", ou ainda "como você é corajoso e forte!", ao ouvirem os insistentes, porém inocentes chamados de "mãe, olha! Olha pai!", o que, de algum modo, sempre aviva emoções dentro do peito, trazendo gostosas lembranças de quando eu levava minhas duas menininhas lindas e pequeninas ao parquinho. O que me faz pensar ainda que o tempo de fazer isso com meus netos não está mais tão distante! (E o coração até bate mais forte!)
     Ouço também a voz meio sussurrada de homens e mulheres varrendo de um lado pro outro as folhas que, devagar, vão caindo das árvores, ou podando as plantas que insistem em se desenvolver com tanta rapidez, me envolvendo em suas conversas tão cotidianamente curiosas e mineiramente deliciosas!
     Mas o mais gostoso é o vozerio das crianças! E aí não só ouço, como vou, algumas vezes, para o parapeito dar uma de "minha vó".
     Uma escola pública aqui ao lado costuma levar as crianças pro parquinho na hora do recreio ou na aula de educação física. E as vozes costumam chegar ao segundo andar em tons e formas variadas, às vezes meio cochichadas, outras esbravejando, muitas vezes em gargalhadas ou até mesmo como choro. E aqui do alto já me flagrei sozinha também indignada, ou chorando, muitas vezes rindo ou dando gargalhas! Vou acompanhando uma ou outra vidinha numa rápida fração dos seus infinitos momentos e me sinto, de novo, privilegiada!
     "Mariana, olha o que eu consigo!", grita Letícia; e Mariana se auto-desafiando desce também o morro correndo pra mostrar pra Letícia que ela também consegue... mas chega ao fim rolando, com dois joelhos ralados e muitas lágrimas no rosto! Mariana se compadece, mas Lucas começa a rir! Quase grito aqui do alto: "Lucas, que coisa feia!"
     O professor grita: "Entenderam a brincadeira? Vamos começar o jogo então!". E aí a gente escuta os que não sabem perder gritando o tal "assim não vale" ou "vamos mudar de brincadeira, essa tá chata!".
     Tem também as meninas que, brincando "de casinha", vão narrando seus papéis: "agora eu sou a mãe e você é a filhinha. Vou fazer comidinha pra você e você não vai querer comer..."
     Ou os meninos conversando sobre os poderes mais legais de cada um dos seus super- heróis!
     E foi numa dessas conversas de menino, o que por acaso me levou a escrever esse texto, que ouvi a voz mais engraçada e dei uma gostosa gargalhada.
     O menino devia ter uns 5 ou 6 aninhos. Brincava com um amiguinho, cada um encarnando o seu personagem, e então ele diz: "Eu queria ser um monstro que peidasse toda hora!"
     É possível que ele um dia realize seu sonho, mas enquanto isso não acontece, fico aqui da janela torcendo pra que ele vá amadurecendo e consiga lidar com a frustração de não poder ser, ainda, o Monstro peidorreiro!


quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Rosa morreu de novo?

Ou: A saga continua...

     Ontem apareceu mais uma Rosa!!!
     Pra quem não conhece a história, escrevi sobre as Rosas vários "posts" atrás! (A Rosa morreu? / Uma casinha em Pequeri)

     Pode ser que seja útil lê-los pra entender o que vem por aí...   (ou pelo menos tentar, já que nem eu sei se entendi!)

     Bem, vou tentar resumir.

     Ontem, minha bem informada tia Ignêz escreve uma mensagem para a minha mãe (e não podemos nos esquecer de que ambas já tinham rido um bocado da história das Rosas!):
     - "Ei Juli! Fiquei sabendo hoje que a Rosa morreu ontem! Mas essa é a Rosa da tia Juracy. Se não fosse trágico, seria cômico. Hahaha bjs"
     Pelo final da mensagem parece que ela achou trágico E cômico!
     Pois bem. Minha mãe caiu na besteira de enviar essa mensagem para nós, suas filhas... E aí começou tudo outra vez!
     - "Rosa? Que Rosa???" - foi a pergunta da Patrícia, minha irmã mais velha, não sem a intenção de fazer uma certa graça!
     A outra irmã escreve:
     - "A Rosa morreu DE NOVO???"
     Minha mãe, então, responde:
     - "Foi a Rosa filha da tia Juracy, aquela bem magrinha."
     Comecei a me sentir um pouco constrangida, já que não sabia nem quem era a tia Juracy, muito menos a Rosa bem magrinha! E aí não tinha nem como ficar triste ou lamentar a morte da Rosa (a magrinha!). Mas pra meu alívio a conversa continuou, e eu percebi que não era só eu que não conhecia a Rosa "magrinha"...
     A irmã mais velha pergunta:
      - "Que Rosa magrinha? A Rosa? A Rosa, pelo que me lembro não era magrinha! Quem é a Rosa da tia Juracy? Mas ela já não havia morrido? Vocês estão falando de uma outra Rosa que ainda não tinha aparecido? Quantas Rosas a gente conhece, por favor???"
     E aí o circo foi armado... de novo!
     A irmã do meio, Tati, diz:
     - "Mãe, afinal de contas, que Rosa é essa agora??? Se continuar desse jeito a gente vai morrer sem saber que Rosa que morreu!"
     E eu pensando: "Gente do céu, enquanto existirem Rosas e enquanto elas estiverem morrendo por aí a gente não vai resolver essa história!"
     Cá pra nós, é um pouco de falta de criatividade dessa gente na família... afinal, quantas Rosas eu ainda preciso conhecer? Decidi então que nunca vou colocar o nome de filha minha de Rosa... mesmo que eu nem filhas mais possa ter! Está decidido!
     Mas a conversa continuou, por meio de mensagens escritas e áudios recheados de gargalhadas desmoderadas.
     A irmã mais velha, que, sem querer ofender ninguém, é a mais desajustada de todas, continuou a conversa:
     - "A Rosa da tia Juracy não é a doidinha que já tinha morrido???"
     Minha resposta:
      - "Não Patrícia! Morreu tá morrido!!! Não morre de novo!!! Já foi! A doidinha já morreu. Essa pelo menos a gente tem certeza que sim. Não temos?"
     E ela insiste, agora com áudios:
     - "Pois é! Eu não lembro da Rosa magrinha!  A Rosa Rosa não era magrinha, era bem gordinha!"
     E eu me perguntando quem seria a Rosa Rosa... as duas que conheci eram gordinhas!
     Mas ela não pára:
     - "Eu me lembro da Rosa grávida, e aí ela não era magrinha! Rosa magrinha não existe!"
     Concluo: "Ok, a Rosa Rosa é a babá, não a doidinha e nem a magrinha!"
     E ela inconformada:
     - "Gente, não dá nem pra ficar triste! Porque eu vou ficar muito triste quando a Rosa Rosa morrer! Mãe, a Rosa Rosa já morreu? Pelo que eu sei, ela não morreu, certo?"
     A outra irmã verbaliza a minha pergunta anterior:
     - "Mas quem é a Rosa Rosa, Patrícia?"
     A irmã mais nova, Carol, (imagino que revirando os olhos!) diz:"A minha rosa está ótima!"
     A irmã do meio, Tati, começa a engasgar de tanto rir!
     E eu me sentindo ainda mais constrangida, pois não conseguia conter as gargalhadas! A notícia era pra ser triste! A Rosa magrinha tinha morrido e a gente estava engasgando de tanto rir! Isso não se faz! Pobre tia Juracy! Aliás, será que a tia Juracy já morreu também? Porque aí o meu constrangimento poderia, talvez, ser um pouco menor...
     A irmã mais desajustada dá a cartada final:
     - "Imagina um desavisado vir contar pra gente que uma Rosa, sua mãe, morreu, sem saber de nada e a gente dispara a rir!"
     Mas era quase isso que estava acontecendo e haja mesmo constrangimento, pois ao imaginar nós todas juntas numa cena como essa, eu realmente entrei numa crise de riso sem volta!
     Segue-se uma sessão de áudios com muitas gargalhadas e vários outros disparates!
     Pra encurtar a conversa e colocar um ponto final (Será??? Ou enquanto existirem Rosas essa conversa de maluco perdura?), hoje minha mãe escreve:
     - "Olha, vou explicar!. A Rosa do tio Antônio, a doidivanas, morreu."
     E nessa altura não posso deixar de me perguntar... Quem usa o termo doidivanas??? Pobre Rosa, além de morrer ainda é chamada de "doidivanas"!
     Minha mãe continuou:
     - "A Rosa que trabalhou conosco no Rio, aquela que ficava torta (mais risadas!), morreu. A coreógrafa amiga da Carol não sei se morreu. A última Rosa que morreu é esta, a magrinha, filha da tia Juracy, e a minha rosa murchou!"
     Imediatamente mandei mensagem pras minhas filhas: "Vocês estão terminantemente proibidas de colocar o nome Rosa em qualquer filha que porventura tiverem!".
    Confesso, o cruel pensamento foi "Vai que morre e a gente fica confuso tudo de novo!".
    E a próxima mensagem foi pra minha mãe: "Mãe, e a tia Juracy? Já morreu?"


sexta-feira, 31 de março de 2017

O dia da Juju chegou!

     Daqui a dois dias minha filha mais nova faz aniversário. Vinte e um anos!
     Aniversário pra ela não é qualquer data. Na verdade, nem é uma data especial! A realidade nua e crua é que Aniversário da Juju é aquele dia em que o mundo tem que parar, dar parabéns pra ela e dizer o quanto ela é especial! 😉
     Mas ela o é, e por isso comecei esse texto!
     Algumas vezes, confesso, já fiquei ansiosa e talvez um pouco estressada pensando no que fazer pra que o dia não só não passasse em branco, mas também para que fosse um dia especial pra sempre! E tinha que ser o dia do aniversário de verdade e o dia da comemoração! Sempre foi assim! 😁

     Quando se é criança, nem é tão difícil. Criança tem o sorriso fácil, a gratidão por pequenas coisas é natural (inclusive dar presente pra ela era muito fácil e barato, né Juju??!!! 😆). E as festinhas eram sempre muito bem aproveitadas! Principalmente se a mamãe aqui fizesse bolo de cenoura em forma de borboleta com confete e também brigadeiro... muuuuuito brigadeiro! (É, desde muito pequena ela tem obsessão com brigadeiro, é só ver o filme do aniversário de UM aninho!).


Na adolescência, porém, não foi tããão simples. Meio de semestre, sempre época de elaborar e corrigir provas, tempo escasso e certo estresse no trabalho... e lá vinha ela com a festa (ou o "evento", se preferir!) toda planejada e com as tarefas todas que me cabiam! Mas vê-la sorrindo e feliz, comemorando a vida com amigos e família era sempre um presente que eu ganhava no dia que era dela!
     Hoje ela não é mais criança nem adolescente, amadureceu; está um pouquinho menos "exigente", contudo não menos especial!
     Sempre foi muito espirituosa, engraçada, divertida, geniosa, determinada, intensa! Talvez por isso, nada era simples nunca!😜 Quando ria, tinha ataque de riso. Quando chorava, tinha crise de choro! Como dizia a professora do jardim de infância na Alemanha: "Sie hat viiiiiel Temperament! Es kommt alles aus dem 'Bauch'!" Bem, não vou nem tentar traduzir. Ao pé da letra inclusive faz pouco sentido, mas é mais ou menos o seguinte: "Ela tem muita personalidade! Age com intensidade pra tudo!"; e olha que a criaturinha tinha só 3 anos!
     Depois da Juju, o dia a dia realmente se tornou nada comum. Ela sempre tinha algo especial a acrescentar, que fosse uma birra (!) ou uma surpresa que ela mesma teria preparado pra mim! Eu a vi crescer com muita alegria e com uma satisfação inexplicável dentro de mim!
   
 Hoje ela é uma mulher! Uma linda mulher! Ainda mais determinada e muito consciente do seu entorno. Claro que, como mãe, meu peito se enche de orgulho ao percebê-la tão madura, tão dona de si, tão esforçada nas suas responsabilidades e tão pronta a servir. Não digo que não tenha fraquezas, todos as temos! Não digo que não dê passos em falso aqui e ali, quem nunca não os deu? Mas no meu coração, o que percebo é uma gratidão enorme por tê-la na minha vida e um amor indizível, sem tamanho! Quem é mãe sabe!
     Hoje li uma frase em um texto, por sinal muito sensível, da Mari Furst Viza que me fez pensar em tudo isso - "o pequenino grão me trouxe para fora, quando, na verdade, fui eu que lhe apresentei a vida" - (você pode ler o texto na íntegra clicando aqui: Semente).
     O grãozinho que a Juju foi, me trouxe "pra fora", me deu mais vida, quando na verdade, fui eu quem lhe apresentei a vida.
     Hoje ela não é mais apenas grão, ela é planta robusta, regada com muito amor nosso e do Pai! O mesmo Pai no qual ela crê e com quem fez uma aliança. Seu amigo maior! Hoje ela é a Júlia, que se preocupa com o outro e, com sensibilidade, acolhe o mais fraco. Que tem amor no olhar, no abraço e no afago! Mas nunca vai deixar de ser a "minha Juju", de voz rouquinha e gargalhada solta! Minha Juju beijoqueira, consoladora (Juju Trösterin!), que gosta de abraço e cafuné!
     Lendo o diário que fiz de sua infância, me emocionei quando li uma de suas histórias, que resume um pouco da simplicidade, alegria, vitalidade e energia ainda tão presentes na minha menina. Eu escrevi:

"Ju está com dois aninhos. Brincando com o papai na areia, olhou pra cima, toda satisfeita e gritou alto e gostoso: 'Bigada Jesus'!"

     É isso! Obrigada Jesus, pela vida! Pela minha Juju! Por nos ter feito mãe e filha!
     Te amo, amor da mamãe!

domingo, 5 de março de 2017

O Cabeça Branca, o bebê Davi e o Sabiá que virou canção

        Esses dias, foi postado no facebook pela Liz Valente, artista multitalentosa, sensível e que eu amo muito, um lindo vídeo (que eu compartilhei), com a canção "Sabiá". Ver o vídeo me trouxe de volta várias emoções e sentimentos e por isso resolvi escrever pra desafogar.
        A filha mais velha, Lis (sim, o nome é igual, só que a "minha" Lis é com "s"! 😉), tinha se casado há alguns dias. Uma festa linda, muita alegria e agora estávamos curtindo a companhia de amigos que tinham vindo de muito longe pra celebrar conosco.
        O cenário: Inhotim, um museu de arte a céu aberto nas montanhas de Minas.
        A companhia: a melhor possível.
        O dia: sete de setembro, feriado. Um dia agradável, sem muito calor, boas conversas e muita coisa bonita pra ver e mostrar.
        Eu ainda meio fraca, me recuperando de uma cirurgia recente, andando devagar, sentando de tempos em tempos, mas feliz... muito feliz com tudo!
        O celular do meu marido tocou... era minha filha mais nova, Júlia, e a notícia era preocupante: O Reve (reverendo Élben César) tinha sofrido uma queda em casa e batido a cabeça. Parecia sério. Ela ainda não sabia muita coisa, mas ia procurar se informar e nos daria notícias ao longo do dia. Ligou pra que pudéssemos estar juntos em oração.
        Continuamos nosso passeio, mas o coração agora estava meio apertado... quão sério seria?
        Os amigos queridos entenderam nossa preocupação. Fizemos algumas orações durante a caminhada, assim desse jeito mesmo, alto, falando uns com os outros. Eles conheceram o Reve e também entendiam o espaço que ele ocupava no nosso coração.
        Júlia ligou mais algumas vezes e às ligações dela somaram-se mensagens de gente amiga nos dando mais um e outro detalhe, mas sem muitas novidades. (No fim daquele dia soubemos que o Reve seria transferido pra Belo Horizonte e que ele estava inconsciente).
        No final do dia, quase saindo do parque, meu marido Zilbinho estava mais à frente com as "crianças" (que já são adultas), o Markus um pouco atrás deles e eu e Dörte indo mais devagar, contemplando o dia que se despedia de nós. Íamos conversando sobre essas esquisitices da vida, sobre esses acontecimentos inesperados, as surpresas nos caminhos traçados por nós... e foi quando ouvimos um canto! O canto era forte, definido, determinado, mais um acontecimento inesperado! Desviamos o olhar do pôr do sol e ficamos as duas olhando pra cima tentando ver de onde viria o canto... e de repente vimos, lindo e majestoso, o Sabiá pousado num alto galho de uma árvore, bem acima de nós. Ficamos ali, sem dizer palavra, só ouvindo, maravilhadas! Markus veio se achegando, também maravilhado!
        Aquele sabiá sabia! Sim, ele sabia! E estranhamente eu me sentia confortada com aquele canto...
        Saindo do "êxtase" do momento, Dörte se pôs a assoviar a melodia, tentando imitar o sabiá. Fomos de encontro aos outros, Dörte ainda assoviando e Zilbinho já com o celular preparado pra gravar aquele assovio, ouvindo de longe o sabiá.
        Claro que a melodia virou canção! Ganhou algumas frases avulsas, enquanto no decorrer da semana íamos recebendo as notícias sobre o Reve. E a dor maior era pensar que, se ele realmente partisse, se Deus realmente achasse por bem levá-lo, ninguém teria se despedido dele... e nem ele de ninguém! Pensamento estranho aquele!
        Zilbinho pediu a ajuda da Liz, que já ia no seu último mês de gestação, pra escrever a letra. Ela, com certeza, teria muito a dizer, inspirada pela chegada de uma vidinha sua, embalada pelo amor de Deus por ela ao lhe conceder a segunda chance de ser mãe.
        E ficou aquele paradoxo no ar...
        O Davi nasceria em poucos dias! E o Reve?
        E a letra da canção, então, surgiu...
        O Davi nascia, o Reve aos poucos partia...
        Muita alegria... muita dor... muita presença e vida... muita ausência e saudade... todos os sentimentos de uma intensidade indizível e de uma contradição constrangedora!
        Nossas mãos e corações se uniam em oração!
        Lembrávamos da cisma do Reve em escrever a lápis, não se rendendo nem à maquina de escrever antes e nem ao computador depois, e isso nos fazia sorrir com ternura. Pensávamos em sua insistência em dividir o Amor de Jesus com cada um que cruzava seu caminho, o que nos reportava ao lema que adotou quando fundou "o jornal" (hoje revista e editora!) Ultimato: "Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo". Ele tinha coração sensível e mente inquieta, no bom sentido! E eu pensava: "Que bom! Que bom que ele sempre quis dividir isso com todos! Que bom que ele escreveu tanto! Que bom que ele não fez pouco caso do dom que Deus lhe deu!"
        E pensávamos no Davi, aquele serzinho já se preparando pra ver a luz do dia, já em posição de querer conhecer de perto aquelas vozes que com certeza já ouvia. O Davi, irmão do João "Valentim". E eu pensava: "Deus é bom!" Oramos por aquelas crianças antes de elas existirem! Acho que Liz e Pedro Paulo nunca duvidaram, apesar de algumas circunstâncias adversas e de alguma espera. E aí estavam eles: o João, já aprontando deliciosamente do lado de fora, e o Davi, pronto pra vir fazer companhia pro irmão, pra começar uma linda aventura como parte da família Valente.
        E assim foi!
        Davi nasceu às 15:40 do dia 5 de outubro de 2016. O Davi, o novo vizinho do Reve e tia Deja, morador da casa recém construída ao lado da deles. O Davi, filho do Pedro Paulo e da Liz; Liz, que desde que nasceu tanto aprendeu com o "cabeça branca", a Liz , filha do Delly e da Luci, os desbravadores do bairro Cidade Jardim, onde hoje todos moramos (eu e Zilbinho também, ainda que fora por uma temporada), bairro onde o Reve morou por mais ou menos 20 anos.
        O Reve se foi no dia 06 de outubro de 2016, à 01h08 da manhã. O Reverendo Élben, o "nosso" Reve, o pastor amigo, aquele que sempre nos desafiava a sermos amigos íntimos de Deus, o Reve, visionário e pronto pra servir, O Reve que nos fazia rir muito com as suas "trapalhadas" linguísticas, o Reve que amava a "Deja bandeja" e espontaneamente demonstrava que o casamento é uma aventura que vale muito a pena, o Reve que amava as estatísticas "a serviço do Reino", o Reve que nos constrangia com seu exemplo de fé e simplicidade, o Reve...
        O coração estava oficialmente dividido: tristeza e alegria faziam uma dança louca no meu coração! Mas no meio disso tudo, de uma forma que não sou capaz de descrever, de explicar, havia muita paz e gratidão!
        A paz, creio, era fruto da certeza do encontro do Reve com o Pai, que Ele tanto amava e a quem serviu tão piedosa e apaixonadamente por 86 anos. A gratidão era por esses 86 anos, em TODOS os sentidos!
        A paz vinha também de pegar o pequenino Davi no colo e sentir a serenidade no bater do seu coraçãozinho, na sua respiração rápida de recém-nascido, na sua entrada pra linda aventura da vida. A gratidão pelo nascimento do Davi, tão esperado, tão amado, em meio a uma família que tem o carimbo do amor do Pai.
        E no meio disso tudo, essa canção, "Sabiá", que estranhamente continua me confortando, ainda que faça as lágrimas brotarem quando a ouço.
        Não mais tristeza, ficou a paz e a gratidão.
        Na rua A do bairro Cidade Jardim,  não veremos mais o Reve de bermuda, papéis e livros na mão (sempre!), caminhando com seu jeito peculiar, indo em direção à Ultimato.
        Na rua A do bairro Cidade Jardim veremos o Davi correndo, andando de bicicleta e jogando bola com o João, que já vai desbravando o espaço com muita energia.
        E assim a(s) vida(s) segue(m) seu caminho...
        Com vocês, a canção Sabiá (e, no final do vídeo, a Rua A!)

(Eis o pequeno Davi no colo de sua vizinha, para ele a Vó Deja, numa foto feita por Liz, sua mãe:)



domingo, 22 de janeiro de 2017

Quando a tragédia vira comédia.

     E porque me lembrei do síndico...
     Eu devia ter uns 14 anos. A cidade era Brasília, a que ERA "minha"! A quadra era a SQS 310, o bloco era o F e o apartamento o 507.
     Lá, no apartamento, aconteciam muitas coisas esquisitas, porém hilárias! Alguns acontecimentos foram, no entanto, tragicômicos, como o que relato agora.
     Eu estava no meio do banho, toda ensaboada, quando comecei a ouvir a gritaria. Não me abalei! Numa casa com cinco mulheres e mais algumas agregadas, gritaria era o que não faltava!
     Nesse dia a agregada era a Bel, a divertida e querida Bel! Ela estava passando uma temporada conosco e tinha ido levar minha mãe a uma farmácia pra tomar uma injeção, tamanha a grandeza da gripe dela, "tadinha"!
     A irmã mais velha andava na casa do namorado, como sempre! A irmã do meio devia estar vendo algum programa entediante na TV, junto com a Nilsa, que era nosso braço direito e esquerdo na época e que, por sinal, estava grávida de uns 8 meses! Meus cachorros, Crica e Dito, dois pequineses por nós mimados e amados, deviam estar dorminhocando na sala de TV junto com Nilsa e Tati.
     Percebi que a gritaria ficou mais séria. Abri a porta do box (porque a do banheiro sempre estava aberta quando não tinha visita!) e gritei: "Que que tá acontecendo?". Ouvi um "Tá pegando fogo!" em tom desesperado. Dei um sorriso e voltei a me ensaboar. Mas alguma coisa me dizia que dessa vez era sério... e percebi certa correria de gente dentro de casa! Saí ensaboada do box, me enrolei na toalha e corri pro meu quarto. Quando lá cheguei, vi que a parede do canto, por trás do meu armário, soltava uma fumaça esquisita. Era um incêndio? Era um incêndio!!!! Na minha casa!!! Minha reação foi sair correndo dali! Mas eu precisava colocar uma roupa! Corri no quarto da irmã mais velha, abri o armário e peguei a primeira roupa que eu vi. Para o meu azar, era um vestido que tinha um certo avental "style" (se é que isso existe!) que se enrolou no meu pescoço. Eu não conseguia me ver livre daquilo de jeito nenhum! Aquelas coisas que acontecem só quando você tem muita pressa! (Quem coloca um avental num vestido se não é pra cozinhar, gente???). No fim, consegui me ajeitar dentro do vestido que, horas depois, fui perceber que estava não só do lado do avesso, como de trás pra frente! Quando finalmente me vi vestida (pelo menos por cima!), tratei de pegar meus cachorros no colo, um em cada braço. O corpo tremia de pavor só de pensar que eles poderiam morrer queimados caso ninguém se lembrasse deles por causa da correria e do medo. Comecei a chorar só por pensar na hipótese... ou de nervoso mesmo, sei lá! Daí, me juntei à minha irmã, que já se esguelava correndo pra lá e pra cá pedindo socorro, me esguelando também e, ainda, no apoio moral (pois não poderia largar os cachorros!), à Nilsa que, mesmo com aquele barrigão, tentava  encher de água os poucos baldes que tínhamos em casa para jogar no fogo, o que, a propósito, não estava ajudando em nada! A mesma coisa fazia a minha irmã mais velha, que havia chegado e eu nem tinha percebido (ainda bem que ela nem notou que o vestido que eu mal vestia era dela!).
     De repente, alertado pelos nossos gritos agudos de desespero, rompe à porta da cozinha um muito amigo nosso, Leandro, já com o extintor de incêndio na mão, e outros dois rapazas. Avaliou rapidamente a situação e correu em direção ao quartinho da Nilsa, de onde vinha o fogo! Aos poucos o fogo foi se extinguindo. Quando me virei, a minha casa, além da grande quantidade de água no chão, estava invadida por um monte de gente desconhecida (e nesse momento senti um grande alívio de ter conseguido colocar pelo menos o vestido, ainda que totalmente desacertado - eu e os vestidos!!!). Uma dessas pessoas era um tal síndico, baixinho, de cabeça branca (se minha memória não me engana!) e que seguia a Nilsa de lá pra cá, de cá pra lá, explicando que, quando se acende uma vela, tem que ter cuidado; que existia um suporte bem baratinho do supermercado para se acender velas com mais segurança; que ela devia ficar mais atenta ao que havia ao redor de uma vela acesa; que... que... que... Vi o rosto da Nilsa ficando vermelho e ela tentando se controlar, quando percebeu um cochicho do síndico com um dos bombeiros (sim, eles chegaram depois que o fogo já tinha sido heroicamente apagado pelos nossos amigos!). Ele dizia: "É porque a dona do apartamento é desquitada!". Numa reação de fúria, Nilsa explodiu na cara do síndico: "Ah tá, porque só em casa de mulher desquitada é que pega fogo? Some daqui!" Posso não me lembrar direito se os cabelos do síndico eram mesmo brancos, mas da cara engraçada de espanto dele nesse momento eu me lembro bem!
     Pra complicar, o telefone tocou! Eu, agarrada aos meus cachorros e meio confusa com tudo, achei que não era hora de atender ninguém, mas a Nilsa correu pra atender. Era a Bel, aquela lá do começo do texto, a divertida e querida Bel que tinha ido levar minha mãe pra tomar uma injeção na farmácia.
- Nilsa, vou levar a Juli pra tomar um chopinho antes de ir pra casa. Ela está precisando de ar puro! Está tudo bem por aí?
- Tá sim, Dona Bel. Só o apartamento que pegou fogo!
      Até hoje fico tentando imaginar a reação da Bel, que, em princípio, deve ter pensado que era piada da Nilsa! Ela, então, disse que pegariam um táxi imediatamente pra casa.
     Nesse ínterim, vejo minha irmã do  meio gritando pela janela do nosso quarto, aquele mesmo que estava com a parede enfumaçada que me deu medo anteriormente:
- Chamem a Rede Globo, seus bobões (ela disse coisa pior, provavelmente, mas vamos ficar com os bobões mesmo)! Vocês ficam aí que nem um monte de urubu! Liguem pra Globo! Assim pelo menos a gente aparece na TV!!!
     Resolvi ir esperar minha mãe lá em baixo. Quando saí do elevador, vi aquela quantidade de gente em frente ao prédio, todo mundo olhando pra cima, uns com cara de assustados, outros com cara de reprovação. O táxi chegou e fui ao encontro de minha mãe que me perguntou:
- Gente, que confusão é essa aqui? Tem até bombeiro! Pegou fogo no prédio?
     Minha perna bambeou! A Bel não tinha contado nada; talvez tivesse esperança de ser só uma piadinha da Nilsa...
     Respondi:
- Sim, mãe! Pegou fogo!
- Onde?
- Lá em casa!
- O quê??? (e não esqueço sua cara gripada de pavor!!!)
     Ali acho que a gripe deu adeus ao seu corpo! Minha mãe correu pra dentro do elevador e  subiu.
     Confesso que, fora o cheiro de queimado que ficou nas minhas narinas por meses, minhas memórias vão só até aí, com exceção de notar, horas depois, a confusão que arrumei com o vestido e mais um detalhe no dia seguinte: minha mãe sentada na cabeceira da mesa, mexendo num monte de papéis e documentos e dando um grito de felicidade porque acabara de descobrir um papel de seguro contra incêndio! Yeees! No meio daquele desalento todo, minha mãe  nem se lembrava, mas havia feito anos atrás, um seguro contra incêndio para o nosso apartamento que venceria poucos dias depois dessa tragédia! Era o tal cuidado que vinha lá de cima e que a gente ainda nem tinha ideia de que existia! O que também talvez explique o bujão de gás que não explodiu, mesmo estando do lado do fogo!
     Bem, o fogo destruiu parte do quarto da Nilsa, preteou a parede do meu quarto e "nada mais"; digo, nada de mais grave! UFA!
     O que sei é que meus cachorros ficaram a salvo, o vestido/avental nunca mais quis saber de mim e nem eu dele, e o síndico, ou a lembrança dele, nos fez dar risada pelo longo tempo em que ainda comentamos sobre o incêndio!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

E viva o síndico!

     Falar mal do síndico... quem nunca?
     Aliás, o síndico é uma figura interessante!
     Na minha cabeça é um sujeito baixinho, de cabeça branca, com muita vitalidade e que se intromete em assuntos sobre os quais ninguém lhe pediu opinião. (O porquê desse estereótipo conto num outro dia!)
     Mas há também aqueles que imaginam uma senhora carrancuda, que só sabe falar brigando e que em vez de dar bom dia, vem dizendo que o pagamento do condomínio está atrasado.
     Muito poderia eu explorar sobre o tema!
     Alguém aí tem uma boa imagem pra compartilhar?
     Mariana sim!
     Vivia ouvindo sua mãe reclamar disso ou daquilo no prédio e seu pai responder sempre a mesma coisa: "Fala com o síndico! Ele resolve!"
     Se resolveu ou não alguma vez, Mariana não tem nem ideia, mas ela tinha certeza de que o síndico só podia ser um desses super-heróis que tem solução pra tudo!
     Ela não sabia a cara dele, mas o imaginava com olhos amáveis e sorriso largo, sempre pronto pra ajudar!
     Uma vez ela estava no playground com sua coleguinha, quando viu o menino do 507 cair do trepa-trepa. Todo mundo ficou assustado e ela, sem demora, disse: "Chamem o síndico!" Mas o menino não havia se machucado, e concordamos com sua mãe quando, ao consolá-lo, lhe disse: "Foi só um susto", apesar da cara amedrontada da criança! E já que estavam no playground do prédio, ninguém estranhou muito o apelo da Mariana!
     Uma outra vez, sua mãe estava ajudando numa lição de casa e ficou confusa com alguns termos do dever de ciências. A menina esperou sua mãe organizar as ideias, mas achou que estava demorando demais e rapidamente sugeriu: "Mamãe, vamos perguntar pro síndico?"
     Até que um dia, na hora do jantar, Mariana começa a se chatear gravemente com uma discussão iniciada por sua mãe, na mesa. Parece que tinha a ver com a temporada que a sogra passaria ali com eles. A discussão começou a ficar bem séria e Mariana começou a tapar os ouvidos, incomodada com tanta gritaria! Mas parece que ninguém percebeu o ato da menina... Era pra ficar feliz com a vinda da vovó ou não? Começou a ficar confusa... Até que, determinada como era, Mariana subiu na mesa, colocou uma mão pra cima e gritou também: "Parem já com isso! E estou indo imediatamente chamar o síndico!"


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Retalho de um cotidiano

     Andava entediado.
     Uma  certa sensação de fastio da vida. E que não viessem perguntar o porquê!
     Nesse dia as coisas pareciam ainda piores. O dia parecia mais feio. A gata parecia mais arredia. O Seu Dirceu da padaria parecia mais carrancudo e o pai parecia mais bravo do que de costume.
     Só a vó... só ela continuava com o mesmo olhar doce e amoroso e com o colo aconchegante, que foi onde ele resolveu buscar certo acolhimento.
     A vó não perguntou nada, porque já sabia. Ela sempre sabia. A vó apenas sussurrou uma canção que, de alguma maneira, fez um afago no coração do menino que se aninhou ainda mais.
     Sempre pensei em avós como anjos, desses que Deus modela com muito cuidado e com dose cavalar de amor e compreensão. Dizem que mãe tem sexto sentido... e eu diria que vó tem sétimo!!! Elas sabem de tudo o que se passa dentro da gente! Pelo menos essas, que se deixaram moldar pra serem anjos!
     O menino tanto se aninhou ali, que acabou cochilando. E sonhou...
     O bom dos sonhos é que não precisam ter sentido algum, nem pra nós, nem pra ninguém. O bom também é que a gente pode consertar tudo de errado quando sonhamos. E mesmo que a solução seja passageira e dure apenas até a gente acordar, nos sentimos aliviados do peso da vida por algum tempo... fora que podemos voltar a sonhar!
     E ele sonhou...
     Via sua mãe, vestida como se fosse pra festa. - Como estou? - ela lhe perguntava; e ele respondia - Linda como sempre! E os dois sorriam, davam as mãos e saíam andando juntos, iam ficando pequenininhos, pequenininhos até sumirem.
     Ele despertou esboçando um discreto sorriso, abriu os olhos e viu os olhos sorridentes da vó, que lhe perguntou:
- Estava sonhando?
- Sim
- E era bom, né?
- Mamãe estava linda! Íamos pra festa juntos!
- Ela vai voltar, não se preocupe.
- Tô com saudades, vó!
- Eu sei... também estou...
- Será que ela pensa em nós? Será que ela sente saudade de mim?
- Com certeza! Quem uma vez aprendeu a te amar, quando estiver longe sempre vai sentir saudades!
- Não sei...
- Vamos lá comer o bolo que a Tinãna fez?
- Não sei...
- Mas você gosta tanto dos bolos dela! Vamos!
- A Tinãna é nossa parenta, vó?
- Não, por quê?
- Só passou pela cabeça. Você sempre conta que ela mora aqui há tanto tempo.
- É, nesse caso é como se fosse mesmo, né?
- Vó? ...
- Oi?
- Que cor tem a tristeza?
- Cinza, será?
- Estou me sentindo cinza hoje!
- É só a saudade. Vai passar! E se a gente for comer o bolo, passa mais rápido ainda!
- Vó, e a alegria?
- Azul? Não sei... acho que a alegria é colorida!
- É, faz sentido! Queria me sentir mais colorido de vez em quando!
- E como você acha que isso pode acontecer?
- Não sei. Talvez tentando colorir cada dia cinza com uma cor diferente que aparecer, até misturar tudo e ficar colorido!
- Sabe de uma coisa? Você é colorido pra mim! Mesmo quando você diz que se sente cinza!
- Vó? ...
- Oi?
- Obrigado!
- Como assim?
- Você acabou de me dar uma cor! E hoje à noite, quando eu sonhar de novo com a mamãe, vou ter mais uma, quem sabe duas ou mais? E se o papai não estiver bravo comigo amanhã, eu junto outra ainda... É, acho que nem vai ser tão difícil, né?
- Viu? Vem com a vó! Vamos lá comer o bolo e, quem sabe, a gente não encontra outras cores pelo caminho?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Basta pouco!

     E o pouco já é "um tanto" tão  bom!!!
     Pois é... estou aproveitando meu(s) ano(s) sabáticos (resolvi chamar assim pra me sentir menos inútil! rsrs) e fazendo muitas coisas que eu sempre quis e, teoricamente, quase nunca tive muito tempo de fazer. Ando lendo mais que antes, porém, menos do que gostaria; ando escrevendo (um pouquinho mais) algumas "bobagens" que alguns de vocês bondosamente gastam tempo lendo e alguns ainda se dão ao gentil trabalho de comentar aqui e acolá, o que muito me alegra e encoraja; ando crochetando (aliás, depois de décadas desejando, consegui aprender! Eu só sabia tricotar. Mas "taí" duas coisas que me fazem sentar por horas a fio! Amo! - e que a minha fisioterapeuta não leia isso!!!); e, além de "tudo isso" e outras coisinhas mais, como cuidar da Lola (a cachorra), da casa e "tals", ainda tenho visto séries na Netflix!
     Na verdade, elas são as culpadas de eu estar lendo menos do que gostaria, escrevendo menos do que sinto vontade e fazendo mais crochet do que deveria em frente à TV, já que crochetar pode me causar uma dorzinha aqui e outra acolá (eufemismos à parte, permitam-me... já fiz cinquenta!)
     Bem, já vi várias séries que me agradaram. O problema é que sou meio compulsiva com as coisas das quais eu gosto, me distraio muito facilmente com coisas inúteis e tenho um problema sério de procrastinação... daí vocês podem povoar o imaginário de vocês com as consequências que brotam desse ser tão intenso e inconstante! Vou denunciar uma delas: uma série com cinco temporadas, cada uma com 15 a 20 episódios, pode durar apenas um mês ou menos! 😱
     Há um ano uma amiga do pilates me recomendou a série "Call the Midwife". Na época, estava envolvida com duas outras séries, uma que via com o marido pra relaxar junto e outra que via só, pra relaxar só! Nem me lembro direito quais! Quando uma delas acabou, resolvi seguir o conselho da minha amiga Lúcia, do pilates. Vi o primeiro episódio... e não me cativou de primeira. Acredito que por causa da natureza das outras séries que eu tinha acabado de ver. Ficou pra depois!
     Bem, o depois chegou. Já estou na quarta temporada e eu chorei em TODOS os episódios até agora! Cada episódio mexe comigo de maneira diferente. Às vezes choro de soluçar, às vezes os olhos só lacrimejam, mas nenhum passa em branco! Na verdade, nunca consegui ver um vídeo de bebê nascendo e sair ilesa! Sempre me emociono! Mas na série a emoção não é só por causa dos bebês, mas de vários outros detalhes que demonstram uma sensibilidade linda que comovem! Fora que, ao acompanhar o dia a dia das freiras, bate aquela saudade do tempo maior de meditação que não tenho tido... (Não! Não estou sendo paga pela BBC e nem pela Netflix pra "propagandear"!)
     Mas onde quero mesmo chegar é no meu momento e no primeiro episódio da quarta temporada.
     Ultimamente tenho me sentido mais do que nunca "como criança" na presença do Pai e feito várias questões ao meu Senhor, coisas que achei que nunca mais perguntaria a Ele, questões infantis mesmo! Depois que você caminha anos a fio na fé, lê e estuda muito a Bíblia, ouve horas acumuladas de excelentes (outras nem tanto) pregações, bate "papo cabeça" com gente séria e que entende da coisa, gasta tempo com meditar na Palavra, lê excelentes (outros nem tanto) livros, trabalha intensamente "na obra para a expansão do Reino de Deus" e coisas afins, a gente acha (só acha!) que sabe alguma coisa e que algumas questões não deveriam mais ficar sem resposta. Aí se depara com certas questões que parecem de uma infantilidade sem tamanho, mas que na verdade ficaram escondidinhas lá dentro e nunca foram respondidas. A gente esbarra na nossa prepotência e abaixa a crista! A gente começa a duvidar das nossas certezas. E nos três últimos anos, longe do "campo de batalha", realmente nos bastidores, tenho me permitido tais questões, inclusive questionando muitas convicções, sem nenhuma censura e com muita liberdade no meu coração! Que delícia!
     Calma! Não quero me tornar uma freira anglicana como as que há na série, mesmo porque me faltam convicção e vocação (rá!), porém não a admiração!
     Contextualizando: Na série há um convento anglicano onde moram freiras e enfermeiras, todas parteiras, que compartilham suas vidas ali. Se passa na década de 50.
     Nesse primeiro episódio da quarta temporada, uma das enfermeiras faz questionamentos se seria vocacionada. Ela está tentada a vestir o hábito e, com tranquilidade, porém querendo decidir, ela se questiona!
     Aí vêm duas cenas maravilhosas nas quais pude sentir o hálito do Espírito Santo soprando na minha direção.
     Desculpe a pieguice, mas vou ter que descrever as cenas, senão minhas palavras não terão sentido.
     Na primeira cena, depois que a irmã superiora machuca sua mão e não consegue dormir por causa da dor, ela sai à procura de uma aspirina. Ela, então, encontra a enfermeira na capela e se dá mais ou menos o seguinte diálogo:

E - Eu não conseguia dormir.
I - Eu também não. Estava indo buscar aspirinas.
E - Para a sua mão?
I - A dor pode ser um sinal de que o ferimento está fechando. Vai passar!
E - Eu fico pensando que vai passar.
I - O seu questionamento?
E - A vontade. Eu nunca desejei algo tanto assim em minha vida.
I - Me parece que se é isso que está sentindo, o questionamento acabou.
E - Mas... não sei porque Ele me quer, Irmã. Não tenho nada pra dar. Nada pra sacrificar ou oferecer em troca de todo o amor Dele.
I - Uma vez eu pensei que sabia o que Deus planejava pra mim. Mas eu não sabia. Eu pensava que sabia o que era amor. Mas não sabia. A certeza é fugaz. É por isso que devemos ter fé!
(os grifos são por minha conta!)

     Pára tudo!!! Volta a "fita" e vê tudo de novo!
          1) Temos que aprender a "ler" as nossas dores! Elas podem nos conduzir a curas autênticas! Elas nos revelam nossa fraqueza e nossa força ao mesmo tempo! Ela nos indica que somos movidos pelos nossos afetos, pelos envolvimento que temos ou deixamos de ter com algo ou alguém, elas nos revelam quão sérios são os nossos compromissos... Se não há dor é porque, provavelmente, não houve afeto, não houve envolvimento, não houve compromisso! Parei, chorei e agradeci ao Pai cada dor já sentida no corpo e na alma! Não de forma masoquista ou pseudo-piedosa, mas com rara gratidão no coração! Estou viva e me permito, talvez não sempre, mas com frequência, experienciar intensamente todos os meus afetos!
          2) Tive a nítida certeza de que, se antes sentia que não tinha nada para oferecer a Jesus, hoje tenho menos ainda. Hoje ando mais cética, mais preguiçosa, mais acomodada, mais preconceituosa, menos compassiva e menos tolerante. Uéé? Mas Ele não me transformou? Claro! Ele mudou tudo em mim, mas não é em todo o tempo que dou o retorno devido e, ultimamente, é mais a velha Marô mesmo que emerge com frequência, infelizmente! Contraditório? Quem sabe?! Talvez seja tão somente uma maior consciência de quem realmente sou, sem perder de vista a busca por me tornar alguém melhor... conjecturas da vida!
          3) Mas aí vem a afirmação da Irmã... Achei simplesmente fantástico! A certeza é fugaz, minha gente!!! Já pensou afirmar isso nos dias de hoje? É querer levar chumbo! Mas é exatamente isso! Fora que as nossas "certezas" ainda podem nos levar à arrogância, à soberba! Parei e orei. Pedi ao Pai fé! E acrescentei: "E que esta gere no meu coração amor profundo por ti todos os dias, para que eu viva sem tantas certezas e de acordo com a transformação que já recebi de Ti, por meio do Teu Amor!"
     A outra cena que me impactou e que, na sequência do episódio faz com que a enfermeira se decida, foi a seguinte:
     A enfermeira está tentando ajudar um casal de meia-idade que vivia numa casa de acolhimento às pessoas pobres com dificuldades e pertubações mentais e emocionais. A casa fora fechada e eles estavam vivendo precariamente. A mulher acha que está grávida, o que seria para ela um consolo, mas na verdade não está. Quando recebe esta notícia, sai correndo pra rua tentando fugir da sua tristeza. O marido corre atrás dela e também a enfermeira, que acaba se deparando com um lindo diálogo entre marido e mulher.

     O homem grita:
- Eu te amo!
     Ele a alcança, os dois se sentam largados no chão e ela diz:
- Não diga que me ama! Por favor querido, não diga que me ama!
- Não diga isso.
- Mas não posso lhe dar nada. Não posso preencher nenhuma necessidade.
- Você me dá o que pode. Eu lhe dou o que posso. Minha benção é que você me permita isso. Não peço mais nada e nós dois nos tornamos completos!

     Percebeu? Entendeu?
     Fiquei inerte e depois recolhendo os caquinhos que se espalharam com o golpe no coração! (quanto drama! rs) Mas é verdade! Os paralelos foram traçados! Me emocionei porque ouvi a voz do meu Pai falando comigo: "Me permita te dar tudo o que tenho! Me permita somente te Amar com meu Amor Incondicional!"
     Assim como aquela mulher, nossa tendência é nos constrangermos! Infinitas vezes já me senti constrangida com esse maravilhoso Amor, porque o senti no canto mais profundo da minha alma, sem dele me sentir merecedora! "Como assim Ele me ama???" é uma reação bem conhecida minha!
Eu, de fato, não posso e nada tenho para oferecer ao meu Senhor, a não ser minha infidelidade, minha carência, minhas dúvidas, minha inconstância...
     Muitas vezes quando Ele fala tão claramente "Eu te amo", a minha reação imatura é responder: "Como assim? Eu não mereço o Seu amor! Pára, porque isso me constrange!"
     E o ouço retrucando:
     "Permita-me apenas te dar o que eu posso e quero te dar! Permita-me estar contigo! Permita-nos ter comunhão! Isso me basta! Isso te bastará!"

     E então nenhuma questão mais importa...

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ah se eu tivesse asas...

     Ontem um pombo cagou na minha cabeça!
     Ontem o Trump foi eleito presidente dos EUA!
     O que uma coisa tem a ver com a outra?
     NADA!
     A não ser que você acredite em presságios ou coisa do tipo! Mas nem assim, porque quando da arte do pombo, o Trump já era presidente...
     Mas teve a observação do meu cunhado alemão que mora na América, quando eu indignada reclamei do pombo: "Isso não foi nada Marô. Por aqui foi uma águia que cagou em cima dos EUA inteiro e isso vai feder por quatro anos!"
     Sim, porque reclamei que a coisa fedia muito - O cocô do pombo, claro!
     Minha mãe me disse que "é sorte"! Só não entendi ainda de quem...
     Isso nunca tinha me acontecido antes; e me senti tão humilhada, fiquei tão indignada quando vi aquele pombo me olhando com aquela cara de "peguei mais uma" que tive vontade de sair correndo atrás dele para dar-lhe um belo dum safanão... o problema é que eu não nasci com asas!
     E fui caminhando, pensando se voltava pra casa ou se cumpria minhas intenções quando saí... e continuei andando passando no cabelo um saco plástico (que seria destinado para o cocô, não do pombo, porque ninguém sai de casa com um saco plástico prevendo que o um pombo vai usar a sua cabeça como banheiro, mas da cachorra, com quem eu passeava) pra ver se conseguia tirar aquele troço nojento da minha cabeça. E o trem fedia!!! Fedia muito e eu fazia vômito!
     Naquele intervalo resolvi voltar pra casa e desisti umas 15 vezes, até chegar na farmácia, outro destino planejado, onde a atendente me deu um papel toalha e me ajudou a melhorar um pouquinho a situação. A vontade de meter a cabeça embaixo do chuveiro era incontrolável...
     E fiquei me lembrando de uma história de quando meu marido era pequeno, talvez com uns 8 anos. Ele morava numa casa com um quintal cheio de árvores, terra... essas coisas gostosas de tempos atrás! Ele costumava brincar com seus carrinhos nesse quintal. Construía estradas, fazia túneis e garagens para guardar os carrinhos. Após alguns dias de chuva, ele foi ao quintal pra procurar seus carrinhos que estavam em um dos "túneis" por ele construído e, ao colocar a mão lá dentro, sentiu uma coisa gelada e úmida. Tirou a mão rápido e viu um sapão saindo lá de dentro! Levou um susto e saiu correndo aos prantos, com o braço estendido, mantendo a mão o mais longe possível do corpo e gritando: "Corta a minha mão! Corta a minha mão! Eu não quero mais a minha mão!"
     E o que isto tem a ver com a história do pombo?
    TUDO! "Corta a minha cabeça! Eu não quero mais a minha cabeça!", foi o que tive vontade de gritar naquele momento, só que eu não sou criança e cabeça é muito diferente de mão né? Rá! (Se é!). Provavelmente seria levada para um manicômio, só não sei se com ou sem cabeça! Mas com as mãos, certamente!
     Mas se eu tivesse asas... ah, se eu tivesse asas!!!
     Pelo menos serviu pra mudar o tom triste e melancólico das últimas postagens...
     E a cabeça ainda está por aqui - eu acho! - porém agora limpa e cheirosa novamente!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Um dia não haverá mais morte!

   
     Frau Hilbers era o nome dela.
     Quando cheguei no prédio e a vi pela primeira vez, fiquei com o olhar parado sem acreditar naquele cabelo todo cinza esculpido para cima, num penteado que me fazia pensar que talvez fosse alguma caracterização. Mas não... eram os cabelos dela mesmo! Paciente e cuidadosamente penteados para cima!
     Ficava eu imaginando quantas horas ela devia gastar pra fazer aquilo todo santo dia!
     Uma vez Júlia, minha filha mais nova, com seus 4 ou 5 anos, bateu em horário inapropiado na casa dela e veio toda feliz contando que tinha visto a Frau Hilbers de camisola longa e cabelo solto. Contava eufórica que o cabelo era muito comprido, liso e cinza! Tive que rir da Júlia. Acho que ela devia achar que era peruca ou sei lá! Me lembro vagamente dela perguntando pra Frau Hilbers porque ela fazia aquilo no cabelo dela!

     Logo que chegamos, quem nos recebeu mesmo foi uma outra senhora, que morava numa quitinete entre o nosso apartamento e o da Frau Hilbers. Era a Frau Weise. Percebi que as duas se encontravam quase todas as tardes na casa de uma delas para tomar cerveja. Duas ou três vezes estive com as duas na casa da Frau Weise, que com muita amabilidade chamava minhas filhas para lhes oferecer algum quitute e eu ia junto.
     Frau Weise logo se foi! Foi morar com os filhos, nos deixando dois móveis, muito úteis por sinal! Ficamos, então, nós e a Frau Hilbers naquele andar. Percebi que ela se entristeceu com a partida da vizinha de longa data.
     Depois chegou o Herr Abraham para morar na quitinete, mas aí já é outro capítulo!
   
     Sempre que nos encontrávamos no corredor ou nas escadas, ela nos parava e conversava muito. No começo eu não entendia nada, e ela, percebendo, conversava com as crianças, mas sempre tentando se comunicar comigo. Uma vez me disse para que eu me matriculasse no "Kindergarten", pois reparou que a Júlia, depois que começou a frequentar a escolinha aprendeu o alemão com muita rapidez! Frau Hilbers tinha bom humor e gargalhada gostosa, sem deixar porém de ser alemã!

     Descobrimos logo um ponto em comum: Ela amava cachorros! Sempre tinha alguns hospedados em sua casa e sempre batia lá em casa pra me apresentar seu novo hóspede ou pra "Paulinha" me dar bom dia! Quando não eram os hóspedes, eram os passeios! Ela se oferecia para passear com cachorros de amigos ou conhecidos. A "Paula" era a adorada dela, uma Dackel de uma de suas amigas que se parecia muito com uma que ela tinha tido e da qual não cansava de me mostrar fotos, contando sobre suas peripécias!

     Ela fazia aniversário no dia 31 de julho. Uma vez me enganei e levei a família toda no dia 30 pra porta dela, com presente, bolo e vela na mão e tocamos a campainha... ela abriu, deu um grito desesperado e fechou a porta na nossa cara dizendo: "Ach du meine Güte! Heute nicht! Das darf man nicht!" (Minha nossa! Hoje não! Não pode!). Ficamos sem entender tamanha grosseria, até que a ficha caiu! Na Alemanha as pessoas não comemoram o aniversário antes da data de maneira nenhuma! "Dá azar"! É estranho e inaceitável que alguém assim o faça!
     Voltamos no dia seguinte, mas ela porém já nos esperava! A surpresa perdeu totalmente a graça! Fora que tive que fazer outro bolo!

     Teve um dia que ela tocou a nossa campainha insistentemente. Abri a porta assustada e ela gritava, com lágrimas nos olhos: "Ein Vogel! Er stirbt wenn wir nichts machen! Ich kann das nicht! Bitte, bitte, hilf mir!" - Era um passarinho! Ele tinha entrado na sala pela varanda e não conseguia sair, e estava batendo no vidro. Ela não conseguia pegar o passarinho, ela tinha agonia, mas não queria que ele morresse e pediu que eu fizesse alguma coisa. Consegui salvá-lo, pra alívio de todos!

     A casa dela era cheia, mas muito cheia de bibelôs e pequenas bugingangas. Era também impecavelmente arrumada, pelo menos nas vezes em que entramos lá! No aniversário das meninas (e também no meu!) ela escolhia um daqueles bibelôs, comprava "Gummi Bärchen" (as balinhas de gelatina que minhas filhas até hoje amam) e deixava junto com o bibelô na nossa porta como presente pra elas! Claro que as meninas se alegravam mais ou quase somente com as balinhas... Alguns desses bibelôs tenho ainda comigo, como lembrança!

     Andava sempre muito bem arrumada, a começar, como podem ver, pelos cabelos! Uma vez consegui fotografá-la antes de sair para algum dos seus compromissos. Ela estava "toda chique", com colarzinho de pérolas e tudo; e ficou toda orgulhosa porque eu quis fotografá-la!

     Depois de muitos meses morando ali, ela me convidou pra tomar uma cerveja na casa dela. Ela gostava de tomar a cervejinha dela à tarde, coisas de alemão! Pensei que poderia ser uma boa maneira de nos aproximarmos mais e também de lhe fazer companhia e ouvi-la. Achava-a muito só! Aceitei. Depois dessa vez, me convidou algumas vezes mais, ora na casa dela, ora lá em casa. Se eu estivesse com as crianças, ela preferia lá em casa. Percebi, então, que ela fez daquilo um compromisso que, de mensal passou a ser quinzenal e depois semanal... toda terça-feira, lá pelas três ou três e meia da tarde a campainha tocava, eu abria a porta e lá estava a Frau Hilbers com duas latinhas de cerveja na mão e dois copos. Alemão tem um copo específico para cada tipo de cerveja. Uma vez ela trouxe, como me prometera, a cerveja berlinense (ela era de Berlin), aquela que se toma com "xarope", e trouxe junto as taças especiais pra essa cerveja e o canudinho! Me serviu mostrando toda orgulhosa como se preparava e como se bebia. Foi assim que conheci a Berliner Weisse!

     Ela amava a sopa de "ervilhas" do Zilbinho, meu marido. Pedia sempre que ele fizesse pra ela. E o Herr De Paula atendia ao desejo da velha senhora! Até que, nos nossos últimos dias por lá, ele foi passar a receita pra ela e ela descobriu que não era sopa de ervilhas, e sim de lentilhas... e ela detestava lentilhas! Rimos muito junto com ela dessa história!
     Para o Herr De Paula ela também deixava toda tarde o jornal "Bild" na porta. Ela lia todo santo dia e depois passava pra gente. Dizia que era um alemão mais fácil de entender! O jornal pingava sangue! Era desses bem sensacionalistas e com muita fofoca! Ríamos muito de tudo isso, mas a linguagem realmente era bem mais fácil do que a de outros jornais!
      Ela soube então, que eu estava prestes a fazer a prova de proficiência do alemão pra começar meu mestrado. Aí é que achou que o jornal podia mesmo ajudar! Não falhava um dia! E no dia da prova, saindo de casa, ouvi a porta dela se abrir. Ela apontou o rosto na porta com um sorriso e me disse: "Vai dar tudo certo! Fique calma!". Então ouvi pela primeira vez a expressão "Ich drücke dir die Daumen", a qual fui tentando decifrar pelo caminho e que, fiquei sabendo logo depois, quer dizer "Estarei torcendo por você", apesar de a tradução literal ser "Estou apertando o dedão por você"!!!

     Tínhamos uma "inimiga" em comum, mas era uma história triste pra mim. Nossa vizinha, Frau Rittendorf, que era uma figura muito estranha e que morava embaixo do nosso apartamento, teria sido por longo tempo uma grande amiga da Frau Hilbers. Algo aconteceu entre as duas que as fez inimigas uma da outra. Era alguma coisa relacionada à mãe de cada uma delas. É certo que a Frau Rittendorf tornou a nossa vida um pouco mais difícil em alguns momentos e a Frau Hilbers não se conformava com a maneira como ela nos tratava, por sermos estrangeiros e termos crianças em casa. Frau Hilbers a chamava de louca, demente, insuportável e outros adjetivos mais. E eu ficava torcendo muito para que as duas se entendessem um dia... acho que isso nunca aconteceu, infelizmente! Em tempo: Nos nossos últimos dias no apartamento, Frau Rittendorf me chamou, me deu um abraço (!) e me pediu perdão por ter tornado nossa vida tão difícil ali no prédio! Aquilo foi emocionante!!!

     Frau Hilbers visitava regularmente o túmulo dos pais. Era uma de suas "obrigações" semanais manter o túmulo limpo e esse tipo de coisa. Era também um dos temas constantes em suas conversas. Mas não se cansava de falar da loucura da vizinha "inimiga", que mantinha o túmulo da mãe iluminado à noite! E esse assunto rendia muitos minutos de "monólogo" dela!

     Me lembro da gente em casa, conversando e ela, de repente, mandando as meninas não perturbarem a gente e  falarem mais baixo! Eu só ria da cara assustada das minhas filhas olhando pra ela e... obedecendo! Uma vez ela completou a ordem me dizendo: "Quando você ficar mais velha, você vai me entender! A gente começa a ficar mais sensível com barulho e o barulho começa a incomodar e irritar a gente! Elas precisam falar mais baixo, parar de gritar quando os adultos estão conversando!" E tenho me lembrado dessa fala dela cada vez mais frequentemente...

     Após 3 anos nos chamando de Frau Hilbers pra cá e Frau De Paula pra lá, ela sugeriu que nos tratássemos pelos nossos primeiros nomes. Ela começou, então, a me chamar de Marô. Isso me encheu de satisfação, pois demonstrava uma certa liberdade dela comigo. Tínhamos, finalmente, certa intimidade uma com a outra. Mas... quem disse que eu conseguia chamá-la de Gisela??? Nunca consegui! Ela continuou sendo mesmo a Frau Hilbers! Mas ela ria e se divertia com isso também!

     Quando anunciamos que em breve voltaríamos para o Brasil, ela cismou que tinha que me ensinar a cozinhar as típicas comidas alemãs... e assim foi! Ela fazia uma enorme compra com os ingredientes necessários e marcava a hora pra eu chegar na casa dela, pra que eu cozinhasse com ela e a gente jantasse juntas! Assim fiz pela primeira vez Goulash e mais uns dois pratos típicos que já não me lembro mais... Nunca mais cozinhei nada disso aqui no Brasil, mas juro que tenho tudo anotado "tim tim por tim tim" como ela me ensinou!

     Já nos nossos últimos dias, quando precisamos nos desfazer dos móveis e pintar o apartamento, mandamos as meninas para a casa dos Nückels, amigos queridos. Trabalhávamos o dia todo pintando e arrumando o apartamento, já vazio, para entregá-lo. Nesses dias ela fez questão de nos oferecer o jantar, sabedora do nosso cansaço e fome no final do dia. Mesmo antes de darmos o dia como encerrado, ela vinha toda satisfeita dizendo "Quando quiserem, podem vir! Já está tudo pronto!". E nos deparávamos com a mesinha da sua cozinha lindamente posta pra comermos a refeição que ela mesma havia preparado! Tanto carinho havia ali naquela mesa!

     Já no Brasil, quando ligávamos no seu aniversário ou no natal, ela fazia voz de choro e sempre dizia: "Nunca mais tive vizinhos como vocês! Nunca mais! Vocês me fazem muita falta"! Uma das vezes que a visitamos quando voltamos à Alemanha, ela repetia incessantemente essa frase...

     Tantas, tantas histórias! Tanta vida compartilhada!

     Pois é...

     Ontem recebi de uma amiga da minha filha, uma reportagem do jornal da cidade (Hannover) sobre um incêndio no último dia 24 lá em Ahlem, bairro onde morávamos. O incêndio foi na rua Lohgrund, número 3... o nosso prédio! E quando vi as fotos, percebi que o fogo vinha das janelas do apartamento da Frau Hilbers... Os bombeiros a levaram ainda com vida para o hospital, mas ela não resistiu...

    Viver 76 anos para morrer dessa maneira é realmente cruel!

     É... sei que são pensamentos sem lógica que me vem à mente por estar ainda sob efeito do choque, mas mesmo assim! Me dói tanto imaginá-la ali dentro, tentando fazer algo para apagar o fogo ou para fugir dele, sem conseguir! Difícil não sentir uma pontada no coração! Difícil impedir que as lágrimas brotem! Pobre Frau Hilbers!!! Ela nos fez tão bem!

     Minha vó sempre dizia que depois de certa idade a gente tem que se acostumar com as notícias dos óbitos, que só aumentam! E fico pensando se já cheguei lá... mas "só" tenho 50!!! Entendo que o raciocínio dela tem muita lógica, mas não sei se um dia me acostumo! Perder gente querida (e animais) é difícil em qualquer tempo...

     É isso! Esses últimos dias parece que a morte resolveu se impor, dizer "Hei! A vida é bela mas estou aqui"! Dias esses nos quais tenho tido uma sensação estranha, como se sorrisse e me alegrasse num momento inadequado e sentisse o coração pesado e chorasse na hora errada. Muitas coisas poderia eu dizer... mas no momento meu coração só chora! Porém, devo declarar que me sinto muito grata por ter tido a Frau Hilbers em nossas vidas e por todo o bem que ela nos fez!

     Três "baixas" em apenas um mês! Ontem, 6 de novembro, me deparo com a lembrança de 1 mês da morte do Reve. Hoje minha família anunciou a Missa de 7o dia do meu tio e, coincidentemente, hoje também, quando me sinto tão esquisita frente a tudo isso, foi-me lembrado pela Liz Valente que faz dez anos que o Lelê, jovem amigo querido, se foi em virtude de um cancêr... (Dez anos de despedida)

     E por isso... e assim... sinto-a, a morte, rondando, ... não a mim, mas esse meu tempo...
     É esquisito lidar com ela!
     E porque sei que escrever é, entre outras coisas, terapêutico, cá estou, para afugentar os fantasmas e um pouco da tristeza do coração!
   
     E deixo-me consolar novamente (e quem sabe você também) com o maravilhoso texto  "O Enterro da Morte", cuja autoria é de um dos falecidos desses últimos dias, o Reverendo Élben César, meu querido Reve. Eu creio, como ele, que um dia, diremos juntos "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1Co15.55).
   
     Eu creio, que um dia "não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou" (Ap. 21.4).


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Bordado do avesso!

(Recomendo, ao final da leitura, ouvir a canção "O Tapeceiro" pra entender melhor)

     Ano passado tive a chance de visitar novamente a Holanda. Desta vez, porém, prometi a mim mesma que não iria embora enquanto não fosse à pequena cidade de Haarlem para, sobretudo, visitar a casa de Corrie Ten Boom, como pretendi de outras vezes e não consegui!

     Por que visitar a casa de Corrie Ten Boom?
     A história dessa mulher e de sua família impactou-me logo no início da minha caminhada com Jesus. Um amigo deu-me para ler o livro "Refúgio Secreto", por ela escrito. O livro conta a história da família "Ten Boom", que por "dever cristão", transformou sua casa num refúgio para famílias judias fugitivas. A consequência disso vocês já podem imaginar... Corrie foi a única sobrevivente da família; a única que, apesar de ter passado por todas as atrocidades de um campo de concentração, sobrou pra contar a história! E que bom que sobrou pois, com certeza, abençoou a vida de muitos e continua a abençoar por meio dos livros que escreveu; não são nenhum compêndio teológico ou literário, mas escritos que, com simplicidade, falam de amor e fé genuínos.
     Foi com Corrie Ten Boom que me senti, pela primeira vez, impactada pelo poder do perdão! (você pode ler sobre o que ela contou aqui: Aprendendo a perdoar)
     Apesar de não ter sido escrito assim no texto acima citado, me lembro bem do que mais me impactou quando lia o relato de Corrie sobre o episódio do seu encontro com o guarda do campo de concentração por onde passara. Esse guarda tinha se tornado cristão. O que mais me impactou, então, foi a frase, não sei se assim escrita, mas com esse sentido: "Senhor, ama esse homem através de mim, eu não sou capaz de amá-lo!" E ao fazer essa oração, ela conseguiu estender imediatamente a sua mão ao homem que, parado com a mão estendida, esperava pelo cumprimento. E aí sim, ela conseguiu sentir, de fato, amor por aquele homem, agora feito seu irmão! Um milagre, não?
     Me lembro também que a fé e determinação do Senhor Ten Boom me impressionavam muito. Fora o seu paciente trabalho naquela relojoaria que me parecia, pela descrição, um local fascinante!!! Durante a leitura do livro, me lembro da sensação de querer tê-lo, ao senhor Ten Boom, como avô! (eu tinha 16 anos na época!)
     Desde então me interessei por toda essa história e, assim como quando pré-adolescente, a casa onde Anne Frank ficou escondida despertava em mim curiosidade por causa da história dela e também dos esconderijos e toda a história de guerra, campos de concentração etc, a casa dos "Ten Boom" também despertou em mim muita curiosidade, mas com o significativo adendo de que os esconderijos lá presentes eram pra alojar, proteger, tentar salvar pessoas como Anne Frank.
     São histórias incríveis e tocantes e eu sempre quis, então, conhecer essa casa, a casa onde viveram os "Ten Boon" e onde, também, era a relojoaria.
     Posso dizer que, pra mim, foi o programa mais emocionante que fizemos nessa viagem. Além de realizar um sonho de adolescente, eu ouvi uma história linda acrescida de muuuuitos detalhes que eu não conhecia, e isso tudo dentro da própria casa, por onde a guia, tão cheia de paixão por toda essa história e de amor por Jesus (a ponto de emocionar a mim e outros turistas) nos conduziu.
     Então... estou contando isso pra falar sobre um dos detalhes que lá vi...


     Essa foto (perdão pela qualidade!) mostra o avesso de um bordado... tudo embaralhado, um emaranhado de linhas e cores. A guia comparou esse avesso do bordado à nossa vida. Muitas linhas embaralhadas, muitas cores emaranhadas. Mas...


ao olharmos o lado direito do bordado, vemos uma outra imagem, uma coroa bem delineada, lindamente bordada. E a guia continuou: "Assim é a nossa vida. Às vezes pensamos que está tudo fora de controle, é tudo um emaranhado só, mas aí Deus nos mostra 'o lado certo', Ele nos mostra a Sua perspectiva. Esse bordado foi feito por Corrie Ten Boom e ela sempre dizia que, no final, após tantas lutas e dores, herdaríamos a 'coroa da vida', que ela tentou representar nesse bordado 'do lado certo'!"

     Pensei em tudo isso hoje porque estava eu sentada crochetando, após orar por um tio muito querido que está se despedindo dessa vida, vendo despretensiosamente uma série na TV, com a cabeça meio distante, quando resolvi ouvir algumas canções que me inspiram... e me lembrei de uma canção cuja letra fala justamente sobre isso, " O Tapeceiro"... linda e verdadeira!!! Sempre me emociono! E quando ouço que nossas vidas "são obras de tapeçaria, tecida de cores alegres e vivas, que fazem contraste no meio das cores nubladas e tristes", quando ouço que se olhamos "do avesso, nem se imagina o desfecho", que "quando se vê pelo lado certo, muda-se logo a expressão do rosto, obra de arte pra honra e glória do Tapeceiro", meu coração estremece de alegria e gratidão por ter tido a chance de um dia conhecer esse, que é meu grande e generoso Tapeceiro, e permitir que ele bordasse a minha vida, com todas as cores que Ele achasse necessário, até o dia em que Ele achar que está na hora de me mostrar o bordado do lado certo!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Dia cinza... coração cinza...

"Dia cinza.. coração cinza...
O Reve se foi...
'O Senhor conduza o coração de vocês ao amor de Deus e à perseverança de Cristo' (2Ts 3.5)
Obrigada pelo seu exemplo de fé, amor e perseverança Reve!
Não estávamos preparados para "te perder", mas a certeza de que nos veremos na glória enche nosso coração de gratidão! Vai lá fazer o céu mais alegre e bonito com seus lindos olhos azuis! Até breve!"

Assim, com essas palavras, comecei hoje o meu dia...
Fui acordada pelo meu marido com a notícia de que o Reve, meu pastor e amigo, havia falecido...
E estou aqui a deglutir a notícia!

Reve é uma dessas raras pessoas que abrilhantam o mundo enquanto por aqui estão. Abrilhantam não no sentido do glamour e popularidade hoje tão perseguidas! Abrilhantam pela integridade e pela Luz que naturalmente emanam! É a Luz com L maiúsculo, a que vem lá do alto, do coração do Criador!
Não sei quantos crêem no que escrevi acima... na "glória", num encontro posterior, eterno após a morte, num "céu" onde viveremos eternamente em paz e sem dores ou lágrimas... 
Eu creio!
E esse homem foi uma dessas pessoas preciosas que ajudou a solidificar essa realidade e a verdade do Amor do Pai, a verdade do Céu no meu coração, na minha vida!
E esse homem foi mais um desses grandes diplomatas do céu, com direito a toda elegância, profundidade e garbo na alma, que o o Pai (no qual eu também creio e pelo qual sou transformada dia após dia!) enviou para representá-lO... e ele o fez com maestria, porque soube, acima de tudo amar a Deus acima de todas as coisas e ao seu próximo, os de longe e os de perto, os conhecidos e os desconhecidos, os importantes e os humildes, os fortes e os fracos, os ricos e os miseráveis, enfim, a cada um que cruzou (ou não) o seu caminho, ele soube amar como a si mesmo, ou até um pouco mais...

Eu creio!
E porque eu creio, há no meu coração, misturado a uma profunda tristeza pela perda de pessoa tão querida e tão especial, uma gratidão profunda e um grande consolo! Consolo porque ele descansou... estava há um mês em coma por causa de uma hemorragia cerebral. Gratidão por muitos, muitos motivos...
Um deles conto agora:
Fui vizinha do Reve por muitos anos. Morávamos num cantinho muito, muito especial em Viçosa.
Eu tinha dois pastores alemães, o Petzi e a Maninha.
Reve vivia brincando comigo porque dizia que eu não podia ser assim tão "zoófila". As pessoas importavam mais que os cachorros!
Eu ria muito e brincava de volta: "Depende, Reve! Depende da pessoa e do cachorro!"
E ele retrucava seu famoso "Ah, meu Pai! Não faça isso Marô!"
(inevitável que as lágrimas não brotem...)
O Reve, na verdade a Júnia, sua filha, tinha, na época, um cachorrinho. Ele vivia no portão lá de casa latindo brava e corajosamente para o Petzi e, podia-se notar a irritação que aquele "naniquinho" causava no meu grandão.
Um dia, fugindo do nosso quintal, Petzi disparou para o quintal do Reve e ficou perseguindo o Pretinho, até conseguir pegá-lo e literalmente, estraçalha-lo! Foi horrível, foi pavoroso tudo aquilo! Meu coração ficou em pedaços! Chorei e fiquei também com muuuuuita vergonha pelo acontecido. Não sabia como pedir desculpas, não sabia como agir...
Fui à cidade, comprei um vasinho de flores e escrevi um cartão, onde expus minha "sem-graceza", meu lamento e dando os pêsames à todos. Peguei as flores e o cartão, vesti minha cara de pau e fui até a casa do Reve falar com ele, tia Deja e Júnia. Só o Reve estava em casa. Ao me ver com as flores, já retrucou de lá: "Marô, o que é isso! Você não precisava trazer flores!". Eu, meio sem saber o que dizer: "Reve, era o mínimo que eu podia fazer pra me desculpar! Não sei o que dizer! Estou muito sem graça e triste com tudo isso!". Ele respondeu: "Não precisa se sentir assim, minha querida! Vê se pode, me desejar pêsames por causa de um cachorrinho! O cachorrinho era da Júnia e sei que ela gostava dele, mas na verdade ele era meio chatinho! Não se preocupe, essas coisas acontecem! O Petzi já está perdoado!"
Claro que, ao ver meu estado, ele optou por se portar com toda essa gentileza e amabilidade! O que, confesso, deu um certo alívio ao meu coração.
Alguns dias mais tarde, enviou-me uma "crônica" que ele havia escrito: "O dia em que Golias matou Davi"... tive que rir! E nunca mais esqueci da singeleza e da prioridade que ele deu ao meu coração doído ao relatar com certa graça todo o acontecido.
Infelizmente não consegui ainda achar a crônica nos meus arquivos, mas quando acontecer, vou publicá-la!
Quem dera eu pudesse deixar um milésimo do legado de fé, amor e perseverança que ele deixa... ou quem dera ser a minha vida um milésimo do exemplo que a dele o é, em todos os sentidos!
Obrigada, Reve! Obrigada por ter sido, por tantos e tantos anos, o Reve!!! Espelho do Amor do Pai!
Quando eu chegar aí, você me mostra se o Pretinho e o Petzi estão caminhando por aí também e se já ficaram amigos! (ouço-o gargalhando e dizendo: "quanta heresia, meu Pai!")
Vá em paz!